“Tinha-se que viver – e vivia-se por hábito transformado em instinto – na suposição de que cada som era ouvido e cada movimento examinado, salvo quando feito no escuro”.
Dante esperava o ofício ansiosamente... ele chegou... sua ansiedade transformou-se em alívio, pois ao ler o anunciado documento percebeu que não tinha sido escolhido. “Ufa!!” pensou de maneira discreta (sempre discretamente foi treinado a pensar), embora novato na Ordem tinha informações sigilosas. No começo nunca imaginaria que um serviço público pudesse ser tão interessante, porém, depois de algum tempo percebeu que nada é de graça, onde quer que esteja, e mesmo as prometidas crenças de união e proteção da humanidade se escoavam, sobrando somente o receio de que fosse um dos escolhidos.
Jardim Nova América, Zona Sul da Capital, Fevereiro de 2002
## Casa de um simpatizante do Sindicato ##
Comato respira fundo na porta daquela casa, o cheiro é desagradável... reconheceu o odor, morte. Não há mais ninguém lá, pelo menos não com vida, ele sabe, seu olfato nunca erra. Entrar foi fácil, uma porta forçada, uma janela quebrada, quem o fez não se preocupou em esconder.
Lá dentro, na sala de estar, pendurando de cabeça para baixo em um luxuoso lustre, estava o jovem simpatizante da tecnocracia, pelo menos o que restou de sua carcaça. Sem pele, com as pontas dos dedos, e órgão genital, ambos devorados de forma agressiva, tinha morrido da massiva perda de sangue.
É fácil identificar inúmeras partes desse quebra cabeça... pele tirada com um instrumento afiadíssimo, de alta precisão – não foi qualquer um – ou melhor – não foram... uma análise de fios de cabelo encontrados na cena demonstram que mais indivíduos estiveram envolvidos. Provavelmente os mesmos chineses que o Chefe mandou investigar e enviar um relatório sobre sua movimentação [seriam membros da Tríade, máfia chinesa concorrente de interesses da Yakusa na capital]. Sem dúvida eram chineses, os traços característicos da morte daquele rapaz, o jeito e sinais deixados demonstram claramente que foi uma ação de alguém que conhece bem a “tradição milenar” do Reino Médio.
Logo o grupo de contenção vai chegar, e os responsáveis serão procurados, afinal, se alguém está procurando algo, ou alguma coisa, do Sindicato, vai conseguir deixar muita gente aborrecida... contudo, era só um simpatizante, talvez devesse algo, ou apenas estava no lugar errado e na hora errada... esse negócio já está longe do que me foi incumbido.
No dia seguinte Comato recebeu um telegrama da diretoria paulista do Sindicato, orientando sua remoção imediata para Santos, onde iria iniciar um programa de treinamento intensivo de membros simpatizantes dos Engenheiros, da Divisão de Fronteira Marítima.
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Finalmente vou ser útil! Que idéia imbecil, refletia o Dr. Mendes enquanto voltava para o apartamento o qual estava acomodado em Brasília. Seus pensamentos eram vagos, apenas formulas e um entrevê de artigos acadêmicos relevantes vinham em sua mente naquele momento angustiante (curioso? não.).
Porém, quando o estranho ao seu lado comentava algo ao mesmo tempo sutil e familiar uma questão pairava: Por que diabos agentes simpatizantes da Nova Ordem queriam lhe ver morto. Sua presença na cidade não agradava ninguém, era óbvio, afinal, nos últimos meses em algumas conversas “sutis”, talvez não tão agradáveis, que havia tido percebeu que era mais do que um pária, uma anomalia – era como o chamavam. Deve ser coisa pessoal, será? O que será? Perguntou-se por um minuto, ao mesmo tempo em que conseguiu se questionar. Quem será esse alguém que me salvou da desmaterialização certa. Não importa, ele me salvou, pensou logo em seguida, não é da minha conta, somente minhas diretrizes e ordens devem ser relevantes.
De volta ao seu apartamento, confortável, diga-se de passagem, após despedir-se do estranho familiar, questionou mais uma vez (raros eram aqueles momentos de questionamentos, embora nada agradáveis): Se o atentado aconteceu por picuinhas particulares sobre minha pessoa, como diabos conseguiram aquele material restrito de agentes de campo, afinal eram apenas simpatizantes? E quem me passou através do código de segurança o meu objetivo primário? Depois de alguns copos de uísque (sempre o de melhor qualidade é claro), acompanhados com algumas drogas desenvolvidas por ele mesmo, aquela noite terminou com uma conclusão que trouxe de volta tranquilidade para os seus pensamentos: Incompetência, afinal, incompetência, se a comunicação no interior da União não melhorar coisas como essa podem voltar a ocorrer!
Em março de 2002 o neurologista Marcelo Mendes recebeu suas novas ordens: Viajar para São Paulo e se apresentar para um projeto de Recolocação das Convenções na Cidade. A única coisa que lhe veio a mente no momento que terminou de ler foi a expectativa que enfim seria útil, Brasília havia sido desgastante – além de sua tentativa de assassinato, boatos infundados haviam surgido sobre ele!
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Num escritório qualquer um reconhecido editor chefe de uma influente rede de televisão brasileira analisa as possibilidades dentro daquele volume intenso de informações e acontecimento, sabia que as análises para esse ano não eram das melhores, mas não esperava que as coisas se encaminhassem para isso.
Desde a queda do poder do Sindicato na cidade sua aliança com a convenção poderia complicava-se, afinal, a “guerra fria” com a Nova Ordem não iria ser boa coisa já que era um dos seus representantes de destaque na região. Isso se confirmou em meados de fevereiro daquele ano, 2002, quando recebeu um comunicado urgente do novo representante da Torre de Marfim em São Paulo: a metodologia dos Vigilantes, a qual era o responsável, iria receber um aumento de 40% nos fundos, contudo, isso só aconteceria caso ele demonstrasse sua fidelidade a União, entregando informações importantes do Sindicato nas mãos da Nova Ordem, caso contrário, esse mesmo montante (subtraído das atuais rendas) poderia ser desviado para metodologias que fossem mais úteis aos ideais condizentes a ordem.
Então, através de seus aliados no interior do Sindicato conseguiu uma reunião com Rafael Correia, um assistente direto de Catharina Guimarães. Como era de se esperar, depois dos acontecimentos do final do ano findo, eles também se interessaram em um jantar de negócios.
[Essa situação de deu depois do escândalo interno na Tecnocracia, em que planos do Sindicato ligados ao financiamento para a implantação do Programa de Erradicação estavam vinculados a uma base autônoma de operações sob o controle do Saw Tsu Wo, na qual experiências contrárias aos preceitos de Damian estavam sendo realizadas com os despertos das tradições aprisionados no local. Aparentemente, o principal responsável pelo acontecido foi o Wenk Liu Haw, Subsecretário dos Assuntos Adjuntos do Sindicato na China Continental, responsável pela liberação dos fundos para o Sindicato.]
O jantar com Rafael Correia foi tranquilo, mas como era de se esperar um algo tão delicado somente seria possível numa troca justa, é assim que os homens do Sindicato fazem negócio. Apenas uma coisa poderia valer um favor tão grande – a chave de segurança de acesso aos computadores mainframe do Banco Central.
[Uma das resoluções da Tecnocracia brasileira depois do evento foi o corte dos fundos direcionados ao capital externo que eram desviados para as agências no Brasil, cerca de 50% do montante era exclusivo do Sindicato paulista. Depois da reunião de dezembro esse valor caiu para apenas 30% - uma “vitória” do sindicato, que graças a trunfo dos despertos aprisionados conseguiu manter esse valor, já que a proposta inicial era de que fosse para 20%].
Era simples, entregar uma informação vital do Sindicato para a Nova Ordem para conseguir um aumento nos fundos e impedir que parte dos atuais fosse “confiscado”, e conseguir uma senha que permite que o Sindicato possa desviar “por debaixo dos panos” o quanto quiser para sua conta.
Qual o melhor caminho?
Algumas semanas depois, enquanto pensava na melhor escolha, recebeu um telegrama de combustão interna que colocava mais um fator nessa equação, uma caixa postal para a entrega de informações sobre ações divergentes aos preceitos de Damian. Em troca: Status e poder no interior da União.
No começo de Março, um possível plano estava sendo traçado, seus contatos no meio científico arranjaram um hacker, que, dependendo de quanto fosse oferecido poderia fazer o serviço para conseguir a senha, ao mesmo tempo, aliados no submundo do crime poderiam dar cabo dele depois que os dados estiverem em sua mão, e para melhorar, tudo sem precisar sequer se identificar.
Talvez um fator esteja lhe escapando. Será que suas ações não podem estar sendo vigiadas? Afinal, estava deixando de ser um mero “peão” naquele jogo para se tornar um “cavalo”, ou quem sabe, “um bispo”. Afinal, no interior da Nova Ordem, até mesmo os “peões” são vigiados.
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˹Centro de Operações da Divisão dos Projetos Especiais, Janeiro de 2002 ˹
Tudo está em ordem Dr. Malcolm? ... Dr.??
Não, nada estava em ordem fazia um tempo. Ele sabia, e como um dos responsáveis por aquele laboratório seria cobrado. O pior, nem satisfações haviam sido dadas sobre o intenso corte nos orçamentos, como é que eles esperam que os projetos ofereçam um relatório satisfatório nesse semestre, falou em voz alta para surpresa de uma jovem assistente colaboradora.
Tudo por causa do seu antigo superior, Saw Tsu Wo, e as experiências que mantinha, era óbvio que da maneira que foi feita logo alguém descobriria [todos tinham uma opinião em comum, esse tipo de estudo, de alto risco, não deve ser mantido em segredo dos outros membros da Divisão]. Agora um novo homem está no comando, Cristiano Salcedo, sua influência pode ser útil, todos naquele lugar esperam que ele traga consigo dinheiro para que tudo volte a funcionar perfeitamente.
Mas ele não podia esperar, Malcolm tinha planos para conseguir verba, afinal não tinha como continuar trabalhando naquelas condições!
Embora fizesse certo tempo que não pedia nada para seus velhos aliados, a Pentex, correu para o telefone em sua sala, e sem pensar duas vezes ligou para um contato em Suzano.
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Um almoço foi agendado e as cartas foram jogadas.
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Era obvio nenhum dos lados faria nada de graça, mesmo assim as condições agradaram ambos. A conversa foi rápida, a comida digerida e papéis foram assinados.
Seu contato, representante da Pentex, precisava de alguém em São Paulo, capital, alheio as intrigas internas da empresa que pudesse desenvolver e administrar um laboratório de experiências genéticas anômalas em híbridos de lúpus-sapiens. Toda a verba necessária para o financiamento desse complexo, e as experiências em seu interior, seria liberada. Era tudo que o Doutor precisava ouvir, mesmo depois de ver aquelas fotos que enojariam e colocariam um fim no almoço de qualquer pessoa sã.
Estava feito, em meados de Março o laboratório receberia os tubos de ensaios com primeiras cobaias, e os homens da Pentex foram apresentados, pesquisadores que a partir daquele momento trabalhariam com Malcolm. Talvez o cheiro estranho e órgãos deformados de alguns deles pudesse incomodá-lo no começo, mas em virtude da situação logo se acostumaria.
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... continua ...